Redação Portal SInte Mossoró – O médico e neurocientista Miguel Nicolelis proferiu uma das palestras mais impactantes do 35º Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) nesta sexta-feira (16).
Durante o Painel Educacional, o pesquisador apresentou uma análise rigorosa e fundamentada na neurociência para alertar sobre os riscos da implementação da Inteligência Artificial (IA) nas escolas, classificando o movimento como uma imposição de mercado que ameaça o desenvolvimento cognitivo e a autonomia intelectual dos estudantes.
A Farsa da “inteligência” e do “progresso”
Diferente da narrativa difundida pelas grandes corporações de tecnologia, Nicolelis defende que o que se chama hoje de IA é, na verdade, uma ferramenta de padronização social. Para ele, a aceitação acrítica dessas tecnologias é fruto de uma construção mercadológica.
“A ideia [é] que a inteligência artificial não é nem inteligente, nem artificial. Ela é um instrumento basicamente de dominação e controle, que foi estruturado para homogeneizar o comportamento humano e impedir a divergência, impedir a dissidência de ideias”, pontuou o cientista.
Nicolelis questionou a noção de que toda inovação tecnológica represente, necessariamente, um avanço para a humanidade. “Esse não é um movimento inevitável, mesmo porque nem toda tecnologia pode ser considerada um progresso. Na realidade, existem vários exemplos de tecnologias que foram introduzidas quase que à força e que as pessoas assimilaram rapidamente pela propaganda, pelo marketing, pela imposição, e que trouxeram grandes danos, em particular para a educação”.
O retrocesso global: O exemplo da Escandinávia
Um dos pontos centrais da fala foi a apresentação de dados sobre países que anteriormente eram modelos de digitalização e que agora recuam. Nicolelis destacou que a ciência já possui evidências concretas sobre os prejuízos do excesso de telas no ambiente de ensino.
- Reversão na Europa: “Os governos da Finlândia e da Suécia estão removendo o computador das salas de aula até o final do ensino médio pelo dano cognitivo que eles detectaram em 30 anos de pesquisa analisando o desempenho dos alunos”, revelou.
- O Erro Biológico: O neurocientista explicou que o cérebro possui uma lógica de funcionamento incompatível com o processamento de máquinas. “O ensino tradicional do contato humano entre professor e aluno, entre alunos entre si, está mais do que provado que é muito mais fundamental do que qualquer tecnologia digital, mesmo porque o cérebro humano não funciona de forma digital. O cérebro humano não é um computador”.
A submissão brasileira ao mercado digital
Ao analisar o contexto nacional, o pesquisador lamentou a falta de soberania e o alinhamento das políticas públicas brasileiras aos interesses das Big Techs. Enquanto centros globais de inovação discutem os limites éticos e biológicos da IA, o Brasil parece ignorar os riscos em prol de um discurso de modernização superficial.
“Minha visão é uma visão extremamente crítica e, infelizmente, no Brasil nós estamos tendo políticas públicas que estão querendo atrair para o Brasil os data centers da inteligência artificial enquanto outros países estão expulsando eles dos países. Então, essa vai ser a minha abordagem”, concluiu Nicolelis.
“A participação de Miguel Nicolelis no Congresso da CNTE reforça a necessidade de os trabalhadores e trabalhadoras em educação liderarem o debate sobre a tecnologia nas escolas. A fala do neurocientista desmascara o discurso neoliberal de que a digitalização é o único caminho para a qualidade educacional. Pelo contrário: sem o contato humano e sem o respeito à biologia do aprendizado, a tecnologia torna-se apenas uma ferramenta de controle da classe trabalhadora e de empobrecimento do pensamento crítico”, comentou o professor Rômulo Arnaud, coordenador geral do SINTE RN e delegado ao congresso da CNTE